MaGenCo


UM PEQUENO COMENTÁRIO SOBRE O FUTEBOL

 

Acabo de assistir ao jogo Grêmio e Internacional e, como só penso no Flamengo, fiquei contente com o empate. Embora simpatize mais com o Grêmio, queria de início a vitória do Inter, que está mal situado e, ao menos por enquanto, não ameaça a nossa liderança. Assim sendo, o resultado ficou de bom tamanho.

Nada disso, contudo, seria motivo de comentários, não tivessem se repetido nesse jogo dois fatos que, já há algum tempo, venho querendo enfocar criticamente.

O primeiro é o absurdo, que está virando rotina, de se permitir à torcida soltar fumaça e pós coloridos dentro dos estágios a cada gol de lá ou de cá. Acho que não seria difícil impedir esse péssimo costume. Bastaria, para isso, um mínimo de vigilância na entrada dos torcedores.

Desobedecendo a ordem de importância dos motivos, esse descalabro, em si, é lamentável por três aspectos: um, de natureza estético-visual, dado o prejuízo que causa à visibilidade das transmissões por TV e, creio, até mesmo aos que estão no estádio; outro, por dificultar, durante um longo lapso de tempo, a visão do juiz e dos bandeirinhas na observação das jogadas a certa distância, induzindo-os a erros de interpretação.

E o último – e principal por ser danoso à saúde – é o aspecto médico-sanitário da questão; afinal, os atletas, exigidos ao máximo pelo esforço físico inerente à prática do esporte, precisam, sobretudo, de fôlego. É verdade que são todos jovens, mas essa atmosfera enfumaçada, na melhor das hipóteses, reduz substancialmente a ventilação de seus alvéolos pulmonares. Alguém versado na fisiologia respiratória do ponto de vista da medicina esportiva teria, decerto, outros dados científicos a acrescentar a essa minha tese. Acredito, sem afirmar, que até a rapidez dos reflexos neuro-musculares, por escassez de oxigênio no cérebro, fica prejudicada ou retardada.

O que lastimo – e me surpreende mesmo – é não ter lido ou ouvido, até hoje, nenhum acadêmico qualificado levantar, junto à CBF e à imprensa esportiva, essa questão pontual. E como não disponho de uma coluna de jornal com a necessária penetração, nenhum dos responsáveis com poder de decisão tomará o mais longínquo conhecimento desse meu apelo. Vai seguir tudo como dantes...

O segundo enfoque se prende a uma questão de regra de jogo: está-se criando um vício que, em breve, se tornará costume e acabará por encerrar, de vez, a mínima possibilidade de algum goleiro, por mais atento e sortudo, defender um penalty. Essa tal "paradinha", que resultou no empate de hoje, é uma indecência, uma injustiça. O cobrador, simplesmente, faz que chuta e pega o guardião no contrapé, ficando com o gol aberto à sua frente e negando ao adversário a mínima chance de defesa. Daqui por diante, só um perna-de-pau perderá uma cobrança. E quem, usando esse artifício indecente, conseguir perder, deve, a meu ver, pedir o boné e mudar de profissão. Desse jeito, até eu garanto o gol...

Onde está a comissão que regulamenta e faz cumprir a regra? Será que ninguém vê isso? Só eu?

 

Mario Gentil Costa 



Escrito por MaGenCo às 22h25
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DEPOIMENTO DE QUEM SABE O QUE DIZ

 

“Mario: andei dando uma zapeada no seu blog e ali vi um texto – intitulado “O Tempo e o Vento” – sobre o Érico Veríssimo. Não fiz comentário no local, pois qualquer coisa que eu tivesse para dizer ultrapassaria os mil caracteres que são postos à disposição.  No último domingo, o caderno “MAIS” da Folha gastou três páginas transcrevendo opiniões de professores de literatura brasileira a discutirem qual foi o maior escritor brasileiro de todas as épocas – Machado de Assis ou Guimarães Rosa(?).

         Li os dois. De Machado tenho a coleção quase completa.  Alguns de seus livros como “D. Casmurro”, “Memórias Póstumas do Braz Cubas” e “Quincas Borba”, li e reli. Do Guimarães li com prazer “Grande Sertão: Veredas” e uma parte de “Sagarana”.

         Só não entendi direito onde os votantes (Machado ganhou de 10 a 2) enfiaram José de Alencar, Gilberto Freyre, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Jorge Amado.

         Sobretudo, e principalmente, em que gaveta do esquecimento, enfiaram ÉRICO VERÍSSIMO? Tenho, como você, quase toda a sua obra. Sua trilogia “O TEMPO E O VENTO” li, inteira, várias vezes. É, até onde conheço, o maior clássico literário escrito em português do Brasil.

         Penso que Machado leva sobre ele as vantagens de ter sido o pioneiro da edição de romances (publicados, ressalte-se, às suas custas, pois não encontrou editor na época), de ser mulato, ser o criador e primeiro presidente da ABL.  No mais, porém, literariamente falando, não vejo onde Machado possa ser melhor que Érico. Basta um único trabalho deste, aquela trilogia, para botar no bolso toda a obra de Machado.

         A saga da conquista do Rio Grande desde os tempos das Missões, a luta das famílias Terra e Cambará, o lendário heroísmo do “Capitão Rodrigo”, e a história do estado sulino trazida até os tempos de Getúlio, são obra prima que nenhuma outra igualou até hoje na literatura brasileira.

         Não sou nenhum literato, nem professor de literatura, nem crítico, mas entendo o que leio. E não consigo atinar com o motivo que levou toda aquela gente a ignorar a figura ímpar do escritor gaúcho.

         Lamento por você que ele não o tenha esperado para abraçá-lo. E lamento, sobretudo, que ele não mereça as láureas de ser reconhecido como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Pelo menos, na opinião deste modesto datilógrafo que rabisca estas mal traçadas...

         Com um abraço do Osmard Andrade."

       

          MEU COMENTÁRIO:

         Osmard Andrade – oafaria@terra.com.br – é meu colega e amigo, otorrinolaringologista e oficial reformado do Corpo de Saúde da Marinha de Guerra do Brasil. Escreveu diversos livros de estudo e de ficção, um dos primeiros até traduzido para o estrangeiro. Leitor voraz e dono de uma seleta biblioteca, tem, portanto, senso crítico de sobra para opinar sobre uma questão que, talvez, merecesse o estudo de revisão de algum intelectual versado na história comparativa da Literatura Brasileira. Quem sabe, aí, num país cuja maior Academia de Letras imortaliza Paulo Coelho, José Sarney, Carlos Heitor Cony, Ivo Pitanguy e outros menos votados, se fizesse justiça póstuma ao grande e humilde Érico Veríssimo, que nunca buscou honrarias...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 11h23
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Divulgação/Divulgação

O PAPA E O MANTO SAGRADO 

No Vaticano, Marcio Braga explicou a Bento XVI o que significa o Flamengo, sua tradição e a importância do clube brasileiro no cenário internacional.

Após duas horas sob um calor de 40 graus na Praça de São Pedro, o presidente Marcio Braga conseguiu entregar a camisa do Flamengo ao Papa. Este demonstrou surpresa e entusiasmo ao receber a peça personalizada. Emocionado, o presidente recebeu a benção Papal em nome de todos os rubro-negros.

 

MEU COMENTÁRIO 

Tá bem, Marcio. Você teimou e foi. Sob um sol abrasador, penou 2 horas no meio da multidão, para entregar a Bento, de mão beijada, o nosso Manto Sagrado. Em troca, recebeu uma bênção que se destina a todos os rubro-negros do Brasil, menos a mim. Está satisfeito agora, Marcio? Por que não lhe pediu de presente, além disso, aquele charmoso chapeuzinho vermelho? Nele, já fica uma graça. Imagine-o, então, em você...

Espero que,  com o prestígio de que ele desfruta - dada sua ligação direta com o Todo-Poderoso - você se tenha lembrado de lhe pedir, como complemento da retribuição pelo mimo, o título Brasileiro de 2008. 

Quem sabe, agora, com a ajuda divina, a coisa anda?

Mario Gentil Costa 



Escrito por MaGenCo às 18h20
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CAÇADOR DE NAZISTAS BUSCARÁ “DR. MORTE”

O famoso caçador de nazistas Efraim Zuroff viajará a Bariloche, na Argentina, e a Puerto Montt, no Chile, em busca do criminoso de guerra Aribert Heim, mais conhecido como "Dr. Morte", informou o Centro Wiesenthal.

América Latina - Sábado, 21 de junho de 2008

 

Nazista é fotografado em cidade austríaca

Heim é um dos criminosos da Segunda Guerra Mundial mais procurados, e Zuroff, diretor do Centro Wiesenthal, deve chegar à América do Sul em, no máximo, um mês.

Ele suspeita que o "Dr. Morte" esteja na Argentina ou no Chile. "Em três semanas, estaremos em San Carlos de Bariloche e Puerto Montt, lugares em que acredito que Heim possa estar", disse Zuroff.

O "Dr. Morte" assassinou centenas de pessoas no campo de concentração de Mauthausen, na Áustria.

O criminoso é acusado ainda de ter retirado órgãos de pessoas vivas sem anestesia e aplicado injeções de veneno diretamente no coração das vítimas.

O Centro Wiesenthal acredita na presença do "Dr. Morte" em uma dessas cidades porque a sua filha vive em Puerto Montt, a 600 km de Santiago, a capital chilena.

 

MEU COMENTÁRIO

Esta notícia me reporta ao histórico episódio do seqüestro, nos anos 60, do criminoso nazista Adolf Eichmann, por parte de agentes do Mossad, Serviço Secreto Israelense. Como todo mundo sabe, o bandido foi seqüestrado à noite, quase à frente de sua casa, num bairro da periferia de Buenos Aires, quando retornava do trabalho. Por que ele circulava tão à vontade? Simplesmente porque nem sonhava estar sendo perseguido. Onde está, então, a diferença com o caso atual? No sigilo.

Como é que esse Zuroff pretende surpreender o tal Aribert Heim se lhe manda, via internet e pela imprensa, um aviso ostensivo de que o persegue e já conhece seu paradeiro?

Claro que a caça, assim avisada, tratará de escapar.

A estratégia secreta com que Simon Wiesenthal atuava, e que deu tão bons resultados, não está sendo seguida por seus sucessores. E Heim, que não é tolo nem nada, a estas horas, já terá dado um jeito de sumir. Bem feito!

 

Mario Gentil Costa 



Escrito por MaGenCo às 21h06
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MANTO-SAGRADO PARA O PAPA

 

Marcio Braga viaja para entregar uma camisa rubro-negra ao Papa Bento XVI

Presidente do Flamengo também terá reuniões com dirigentes do Milan e da Fifa: 'Blatter me disse que é rubro-negro'

Eduardo Peixoto Do GLOBOESPORTE.COM -  16/06/08 - 20h50 - Atualizado em 17/06/08 - 11h51

 

Marcio Braga volta à Europa  

 

Dois meses depois, o presidente do Flamengo, Marcio Braga, volta à Europa. Ele embarca nesta semana para compromissos diplomáticos. Na agenda está previsto um encontro com o Papa Bento XVI, no Vaticano, para entregar-lhe uma camisa rubro-negra.

- O Brasil não é a maior nação católica do mundo? Eu não presido o clube de maior torcida do país? Logo, ele tem de receber nosso manto.

MEU COMENTÁRIO

 

          Marcio Braga, presidente do Flamengo, irá à Europa para levar ao Papa Bento XVI uma camiseta do Flamengo. Fiquei estarrecido com essa notícia. Deploro-a. Deploro-a profundamente. Tenho até vergonha. Considero-a um gesto pueril, subserviente e barato. E tenho a mais absoluta certeza de que a mesma será motivo de riso nos bastidores do Vaticano. Que temos a ver com esse homem? Só falta ao mandatário rubro-negro afirmar que Bento também torce pelo nosso time.

          Não tenho certeza, mas desconfio de que, entre os mimos que Bento gosta de ganhar – e não devem ser poucos, pois quase todo mundo (menos eu!) o bajula, inclusive o presidente dos Estados Unidos – o último seria uma camiseta de um clube de futebol, seja ele qual for. Que coisa vulgar! Que idéia ridícula! Imaginem o Ratzinger travestido de jogador do Flamengo!

          Só não me sinto à vontade para descer a vulgaridades e adivinhar aqui o destino escatológico que terá, no caso, nosso manto-sagrado. Mas dependendo da maciez do tecido..., não duvido nada! E fico, daqui do meu canto, fantasiando o “diálogo de alto nível” que, por questões de protocolo, travar-se-á entre esses dois boquirrotos; Bento XVI, que sabe tudo – pois é ‘pluriglota’, infalível e onisciente – deve acompanhar diariamente, pelo rádio, o noticiário esportivo brasileiro e, por conseguinte, deve estar curioso por saber quando o Toró voltará a jogar...

          Marcio, volte atrás! Não seja tolo! E, por favor, não comprometa a torcida com essa iniciativa idiota, baseada na afirmação ainda mais cretina de que “o Brasil é a maior nação católica do mundo”. Grande título, esse!

          Você, Marcio, já deveria ter notado - pois só não nota quem não enxergar um palmo adiante do nariz - que esse papa é orgulhoso, cheio de si mesmo, e não lhe dará a mínima bola. Ou você pensa que, a exemplo do Bush, será recebido nos jardins privativos do Vaticano? A audiência que, por força do protocolo, lhe está reservada será a mais curta possível, a mais perfunctória, e você voltará para casa com cara de tacho e com a certeza íntima de ter feito um papelão.

          Vá por mim, Marcio. Desista enquanto é tempo!

         E trate de administrar o Flamengo como ele merece e precisa, usando, para isso, o imenso poderio financeiro que “a maior torcida do mundo” – 36 milhões de brasileiros – representa e lhe oferece.

          Aí, sim, você receberá meu aplauso irrestrito.

 

          Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 18h11
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O TEMPO E O VENTO

 

28 de novembro de 1975. São 4 horas da tarde. Estou no aeroporto de Floripa, esperando o Electra da Varig para voar até Porto Alegre. Meu objetivo é um só: satisfazer um desejo antigo, sempre adiado, e, finalmente, conhecer Érico Veríssimo, de quem tinha acabado de ler “O Tempo e o Vento”, sua saga maior.

Os personagens dessa famosa trilogia haviam adquirido, na minha imaginação, consistência quase carnal, e um amigo gaúcho já falecido, Rudolf Lang, também otorrinolaringologista, impressionado com meu genuíno entusiasmo pela obra do famoso homem de letras, se oferecera para agendar a visita.

- Deixa comigo. Sou amigo do Érico. Ele é meu cliente.

Não sou crítico literário, mas, da minha ótica de ledor sistemático e atento desde a juventude, Érico Veríssimo foi o grande romancista brasileiro do século XX e um dos maiores de todos os tempos. Nenhum dos outros que eu tenha lido teve, a meu ver, seu fôlego, sua constância, sua simplicidade, sua visão social, seu apego e seu respeito pelo leitor.

Sua produção completa, encadernada, engrandece minha biblioteca doméstica. Seu último livro – “Solo de Clarineta” – me reportou a uma experiência já vivida numa exposição de pintura e escultura na minha cidade, quando fui acometido pelo súbito impacto visual de uma obra de arte que tratei de adquirir em seguida e que até hoje ilustra e decora a parede do meu quarto. Era um abstrato de Dimas Rosa, um dos mestres da arte plástica catarinense. E Érico, com sua originalidade habitual, tivera igual sensação num museu americano, batizando-a de “susto estético”.

O Electra, vindo de São Paulo, chegou a Floripa na hora, como acontecia de rotina naqueles bons tempos. E decolou pontualmente. Em 45 minutos, pousava no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Dali, de táxi, rumei para o consultório do meu ilustre colega, na Rua da Praia. Cheguei e, reconhecido pela secretária – pois era assíduo freqüentador da casa – fui levado a aguardar na “sala da chacrinha”, equipada com cafezinho, geladeira, fumódromo e tudo o que convinha à tradicional hospitalidade com que o querido amigo recebia os mais chegados.

A visita a Érico se daria no início da noite.

- Fique à vontade, Dr. Mario. O Dr. Lang está atendendo o último paciente. Num instantinho, ele estará com o senhor.

- Obrigado, eu estou à vontade.

Com boa música de fundo, tomei o cafezinho, acendi um cigarro e caminhei até a janela. A famosa rua fervilhava em seu tradicional desfile de final de tarde de primavera. O sol poente, avermelhando o horizonte, se punha nas águas mansas do Guaíba.

Um ruído atrás. Era o Lang que chegava, tirando o jaleco azul-claro. Algo estava errado em sua expressão, de hábito alegre e expansiva; ele não sorria. E disse, simplesmente:

- Mario, tenho uma má notícia pra lhe dar.

- O que foi, Lang? O Érico adiou o encontro?

- Não. Ele morreu hoje. Infarto fulminante.

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 21h32
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SARGENTO LAURO, MEU HERÓI

 

Soube hoje, por um amigo comum, que o Sargento Lauro faleceu. Ele, simplesmente, salvou minha vida, e nunca lhe agradeci na justa medida. Lá se vão, pelo menos, 45 anos.

À época, eu atuava em todos os hospitais de Floripa. Minha agenda diária era uma correria sem fim. Operava de manhã, de segunda a sexta e, como o mais jovem dos três únicos otorrinos da cidade, tinha chamados quase todas as noites, sobretudo nos fins de semana. Os outros dois colegas eram mais velhos e, com a chegada de um novato que queria mostrar serviço, não vacilavam em transferir-lhe esse encargo pesado, em especial nas madrugadas.

Hemorragias nasais, traqueotomias de urgência, remoção de corpos estranhos de ouvido, nariz, garganta, esôfago ou pulmão, paracenteses de tímpano, drenagem de abscessos de mastóide e de amígdalas, bronco-aspirações em UTIs eram minha rotina. Não foram poucas as vezes em que, em plena tarde, com clientes na sala de espera, vi-me obrigado a interromper bruscamente o trabalho clínico para correr, a bordo do meu Gordini, pelas ruas do centro em direção a alguma dessas inadiáveis emergências hospitalares.

Não raro, nem tinha tempo de almoçar. Isso para não lembrar as noites de sono consumidas nesses socorros e o cansaço que, protestando intimamente, tive de vencer para estar pontualmente, às sete-e-meia da manhã, no centro cirúrgico para mais uma jornada de trabalho.

E ainda por cima, para atender ao apelo de um amigo médico a quem devia gentilezas recebidas nos tempos de estudante – uma das quais, simplesmente, a chance da minha primeira cirurgia com bisturi em punho – concordei em acrescentar a essa carga já penosa o compromisso de atender, uma vez por semana, militares e suas famílias no recém-restaurado Hospital da Polícia Militar de Santa Catarina e, ali, também operar alguns casos mais simples.

Dizer que sinto falta desse ritmo frenético seria pura demagogia. Não sinto a mínima. Sinto, isso sim, saudade da juventude, da energia e da resistência que me permitiam suportar a fadiga, embora deva hoje, de algum modo, estar pagando um preço por esse desgaste irreparável.

Pois foi numa dessas tardes, em plena digestão de um almoço corrido, que o saudoso Sargento Lauro salvou minha vida. Estava eu atendendo um caso rotineiro, quando irrompeu na sala um jovem de seus 15 anos, gritando:

- Doutor! Depressa! Minha mãe tá morrendo ali fora!

Diante do alarme, interrompi a consulta e me dirigi à sala de espera. Uma senhora de seus 45 anos, sentada no longo banco de madeira, cobria o rosto com uma toalha branca, manchada de sangue coagulado. Mais uma epistaxe para enriquecer meu acervo. Logo verifiquei que a hemorragia era pequena e que seu estado geral era bom – mucosas coradas, pulso forte e bem ritmado, pressão arterial normal, consciência plena; apenas a palidez natural do susto. E o rapazinho ao lado, tenso, ansioso. Dirigi-me, então, à paciente:

- A senhora, por favor, aguarde um pouquinho, enquanto eu despacho outra pessoa. Não se preocupe. Está tudo bem. É só um minutinho.

Já estava assinando a receita, tranqüilo, quando ouvi um barulho atrás, e uma sombra voava a meu lado. Era o Sargento Lauro, enfermeiro de plantão, que se projetava no ar, com um grito agudo:

- Cuidado!

Agachei-me instintivamente. A paciente, atônita, olhava a cena às minhas costas, e eu não entendia por quê. Numa reação automática, me virei e vi quando Lauro, num salto de verdadeiro campeão de karatê, imobilizava o rapazinho que me atacava com um punhal. A arma já estava no chão, e o doido jazia, dominado. Seus olhos, transfigurados, saltavam das órbitas, enquanto berrava:

- Minha mãe tá morrendo, seu médico filho-da-puta!

De repente, com a gritaria, a sala ficou cheia de militares. O garoto foi trancado num cubículo, enquanto seu pai, que era major, era chamado às pressas. A mãe, aturdida com a reação intempestiva do filho, protestava:

- Doutor, me desculpe. Esse menino é assim – muito nervoso. Não pode ser contrariado. Meus Deus! Que coisa! Eu estou tão envergonhada...

Passada a refrega, cauterizei-lhe um vasinho vagabundo no septo nasal e a mandei para casa. Não mais a vi, mas sei que ficou boa. Também nunca mais vi o garoto, que, hoje, se continuar com aquele pavio curto, deve ser um homem perigosíssimo.

Passados alguns anos, tive notícias de que seu pai, que também era “nervoso”, jogara-se do alto de um prédio, numa "crise de depressão".

Claro que nunca mais voltei àquele ambulatório. Mas cruzei com meu herói algumas vezes. Ele era de poucas palavras e se limitava a responder a meus protestos de dívida e gratidão imorredouras com um sorriso humilde, como se não houvesse feito nada demais; dizia sempre que apenas cumprira seu dever.

Imaginem, se ele não tivesse noção tão generosa do que isso significa...

 

Mario Gentil Costa

 

 

 



Escrito por MaGenCo às 20h32
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NOBEL DE MEDICINA DEFENDE

PESQUISAS COM CÉLULAS-TRONCO-EMBRIONÁRIAS

 

O geneticista Oliver Smithies, Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 2007, defende no Brasil a pesquisa com células-tronco-embrionárias.

Entre outras afirmações, ele diz que “ao colocar o material genético em cultura, parece que se trata de coisa morta, mas, depois de quatro dias, observa-se, por exemplo, cardiomiócitos pulsando como se pertencessem a um ser vivo”.

Questionado sobre o fato recente de a Igreja Católica incluir a manipulação genética como o oitavo pecado capital, Smithies, com a diplomacia e a sutileza dos que não querem provocar polêmicas inúteis e, por isso, não dizem tudo o que pensam e preferem expressar suas idéias nas entrelinhas para os que são capazes de entendê-las, declara que “a religião evolui com o tempo e que há falta de compreensão, por parte dos religiosos, do trabalho que é desenvolvido pelos cientistas”.

Mesmo assim, diz ele, textualmente: “Quando as células-tronco-embrionárias são utilizadas para formar células ou tecidos em outra pessoa, é como se estivéssemos doando vida, pois trará benefícios para outros seres humanos. Morte é o descarte desse material”.

Encontrar a cura para doenças que hoje são consideradas mortais é uma das maiores expectativas da humanidade.

 

MEU COMENTÁRIO:

Agora, com a sofrida vitória, no Supremo Tribunal Federal, da lei que favorece as citadas pesquisas, a batalha entre a Ciência e o milenar obscurantismo castrador do Vaticano está praticamente ganha. Padres e demais pregadores podem deblaterar à vontade do alto de seus púlpitos, porque os verdadeiros interessados – os portadores de doenças até agora incuráveis e seus pais aflitos – saberão distinguir de que lado estavam a razão e o bom-senso. De nada adiantará o esforço reacionário, atrasado e caturra de Bento XVI e seus sequazes, ao acrescentar esse ridículo pecado a seu interminável e maçante rosário de culpas imaginárias.

Nota: vejam que cara de gente boa o velhinho tem. Aliás, muito mais confiável que a do Bento... 

 

Mario Gentil Costa   



Escrito por MaGenCo às 18h09
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“VIBRAÇÕES”

 

Como ex-portador de uma doença gravíssima, tive a felicidade e a surpresa de responder à terapia em nível acima da expectativa mais otimista, a ponto de ter vivido os últimos 8 anos sem medicação e sem seqüelas aparentes. Atribuo esse sucesso, em primeiríssimo lugar, à medicina científica clássica e, em segundo, a algum fator imensurável, relacionado à minha imunidade pessoal.

Na ocasião, na virada do milênio, recebi a oferta de um grupo de orações em sessões de cura mediúnicade cura mediúnica e, por questão de coerência com minha descrença, não me achei digno de usufruí-la sem a perda do respeito por mim mesmo; seria um oportunismo indecente, e preferi enfrentar um prognóstico que não era dos mais alvissareiros. Deu certo. Se não tivesse dado, é provável que tivesse me arrependido dessa eventual teimosia e nem sei se teria coragem de confessá-la. Ainda assim, também não consigo fugir de um sentimento de orgulho pela recusa. Afinal, foi um desafio que decidi enfrentar, e que outros não enfrentaram. Mas não é isso que desejo discutir aqui; agradeço a boa intenção de todos e respeito a fé alheia, assim como acho que minha descrença deve ser respeitada.

De resto, só se tem duas alternativas: ou se crê ou se não crê. Esta última, entretanto, é, no meu caso, mais que minha descrença em si, a conseqüência cumulativa e indireta de uma profunda e irreversível decepção com o comportamento de muitos arautos do chamado "cristianismo", tanto (e sobretudo) o praticado pelo Vaticano, quanto o exercido embusteiramente por líderes evangélicos milagreiros do tipo Edir Macedo.

Desenvolvi, a partir daí, uma crescente ojeriza por dogmas, mais que todos, pela presunção de "infalibilidade" de papas, e, no que toca a este atual Bento, chego a sentir pena, quando não náuseas, pelas bobagens que apregoa cínica e impunemente, a última das quais, de que “o inferno é um lugar físico e está cheio de gente”.

Sempre repito a amigos que, diante da eventual necessidade de acreditar na palavra pura simples de um católico, de um protestante ou de um espírita, preferiria crer na do último, pois, com as costumeiras exceções, na minha longa convivência com os três, não me lembro de ter conhecido um espírita desonesto, embora imagine que deva haver um ou outro... E de alguns dos primeiros, tenho as piores lembranças. Será apenas porque são a maioria? Talvez. O que sei é que o número de pessoas relapsas e volúveis entre os católicos é desproporcionalmente maior. Por quê? Por outro lado, será que as minorias são naturalmente mais seletivas? Quem sabe?

Minha apostasia vem de longa data, desde que, aos 18 anos, viajando para estudar fora, me livrei do jugo religioso familiar, sobretudo do meu avô – que era um católico intransigente – e tive contatos com mentes mais arejadas. Hoje, com imenso orgulho, sou um "auto-excomungado" e, à força de muito pensar e de umas tantas leituras determinantes, rompi com a crença no sobrenatural. Devo, portanto, ser tachado de "ateu", embora, durante décadas, tenha assumido, por mera comodidade, a postura indefinida do "agnóstico". E foi a partir daí que cheguei a conclusões que me repugna definir como “materialistas” – não gosto das conotações que essa palavra traz, já que a “matéria”, como hoje é vista pela física de partículas e pelos mistérios inerentes à nossa limitada compreensão do assunto no nível do microcosmo corpuscular relativístico dos binômios matéria-energia e espaço-tempo, às vezes nem parece ser “matéria” como a entendiam os físicos do passado.

    Mas também acho que está havendo, da parte de certos espiritualistas, um insidioso ânimo de usufruto dessa terrível e esmagadora incógnita. Tenho ouvido, lido e testemunhado legítimos depoimentos oportunísticos, por parte de lideranças místicas que se aproveitam do chamado "Princípio da Incerteza de Heisenberg" – sobre o qual nada sabem – para encaixar aí, nessa aparente imaterialidade puramente físico-energética, a justificativa para a existência do espírito em si. Tudo isso, para mim, não passa de mera especulação, e o mais triste é que não vejo, no contexto, perspectivas de uma  tese que venha a propiciar o decisivo enunciado da tão almejada "teoria unificada" que Einstein buscou em vão. Será preciso nascer outro gênio do seu porte para dar esse retumbante salto epistemológico. E, decerto, isso não acontecerá no meu tempo.

Outro aspecto que me dá urticárias, gera anticorpos e exacerba meu natural ceticismo, é a superficialidade crescente, muito ao sabor de certos crentes da espiritualidade, de usar o termo 'vibrações' para aludir a forças que nunca são definidas em termos de intensidade, freqüência e comprimento de onda, já que essas são as bases que aceito como válidas cientificamente para definir tal fenomenologia vibratória, que, por suposto, deve ser passível de medida qualitativa e quantitativa. E quanto às tais 'transformações" a que alguns aludem em seu arrazoado, aceito-as dentro das mesmas premissas. Caso contrário, para mim, o conceito se torna vago.

E tenho certeza de que o grande, o imenso Lavoisier, quando enunciou sua lei máxima e eterna, pensava da mesma forma que eu eu. Jamais lhe terá ocorrido estendê-la ao mundo da imaterialidade. Ele deve ter intuído o Universo como a sede auto-existente, possivelmente infinita, da química e da física. Só não imaginava que sua proposição viesse a aplicar-se a tantos e tão variados aspectos.

Também não consigo absorver a hipótese da permanência da identidade humana após a morte; acho que somos, como indivíduos, apenas um ser (como a própria palavra define – “indivisível e único”) e vivemos uma só vida terrena; cada pessoa com sua individualidade, da mesma forma que uma mosca ou uma barata. Acho que o Eu termina com a morte do cérebro (mente) onde está inapelavelmente inserido. Por comparação grosseira, o Eu seria o software – a programação individual – que nunca sobrevive à destruição do hardware (cérebro).

Não vejo razões, só porque somos os únicos animais (conhecidos) que têm certeza de sua finitude física, para privilegiar-nos com direitos especiais à eternidade. A única alternativa que aceito, como garantia de permanência no espaço-tempo, é nossa inevitável "transformação" em poeira de estrelas. Ou seja, nossas partículas atômicas e subatômicas é que, de acordo com o imortal gênio francês, são eternas...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 19h11
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VITÓRIA DA RAZÃO

 

Aqui do meu canto, quero me congratular com os ministros do Supremo Tribunal Federal que votaram a favor da liberdade de pesquisa com células-tronco embrionárias e garantiram, dentro dos moldes propostos pelo bom senso, a continuidade dos estudos e das experiências dos cientistas brasileiros rumo a essa necessidade premente. Doravante, o Brasil, livre e desimpedido, une-se aos países mais adiantados do planeta na busca de soluções para um sem-número de doenças até agora incuráveis, que condenavam a uma vida abjeta tantas vítimas infantis e adultas.

A perspectiva que se descortina diante dessa abertura é auspiciosa por todos os títulos, e podemos esperar que o futuro próximo nos acene com grandes saltos na aquisição de meios de cura efetiva de muitos males que, durante milênios, afligiram a humanidade.

Só tenho pena e – por que não confessar? – certa vergonha de que a decisão tenha tardado tanto e não tenha sido unânime, pois era isso que se devia esperar de uma elite supostamente imune a influências espúrias e, sobretudo, a assédios de natureza místico-religiosa, os mesmos que, durante séculos, atravancaram a marcha do pensamento racional. Basta lembrar o comportamento retrógrado e obscurantista, sobretudo da Igreja Católica, ao longo da história, quando se tratou de aceitar e conviver pacificamente com evidências indiscutíveis trazidas pela ciência desde os tempos de Galileu Galilei e, mais adiante, com a racionalidade da teoria da evolução que ameaçava abalar fragorosamente as bases de sua dialética criacionista.

Com essa decisão que, espero, seja irrevogável, o Brasil dá um exemplo incontestável de seu progressivo amadurecimento e independência crítica e ajuda a provar, mais uma vez, que os tempos mudaram e que a prevalência da religião em geral como reguladora de costumes retrógrados e limitadores do verdadeiro bem-estar social é coisa de um passado que em nada deve nos orgulhar.

O progresso científico, promovido dentro de preceitos éticos e constitucionais, mas desvinculado de tais posturas limitadoras, deve constituir a meta prioritária de qualquer nação que se preze e que não aceite pressões fundadas em supostos e mal interpretados preceitos de fé.

Ainda bem que, no seio de nossa magistratura, atua um percentual majoritário de cérebros desatrelados, capazes de assegurar, em situações críticas, a vitória da razão e da lógica, único meio dado ao ser humano para desbravar os caminhos de sua genuína redenção.

 

         Mario Gentil Costa

 

A favor da pesquisa

Editorial – Folha de S. Paulo, 30/5/2008

 

“Ao reconhecer a validade da Lei de Biossegurança, o STF impediu que uma ética privada, a religiosa, fosse imposta a todos.

 

A DECLARAÇÃO, pelo Supremo Tribunal Federal, da constitucionalidade do artigo 5º da Lei de Biossegurança (nº 11.105), que autoriza o uso de células-tronco de embriões humanos para pesquisa, significa antes de mais nada a vitória da lógica e da razão prática sobre especulações de inspiração religiosa.

A Lei de Biossegurança, afinal, está longe de constituir um diploma permissivo ou mesmo liberal. Ela limita as pesquisas com embriões humanos a remanescentes de tratamentos de fertilidade, que já existem e não foram nem seriam implantados num útero, sendo, portanto, nulas suas chances de produzir um ser humano em ato.

Preferir, em nome de um etéreo princípio de respeito à vida, manter esses blastocistos congelados indefinidamente a utilizá-los em investigações médicas de alta relevância, que poderão um dia debelar males hoje incuráveis, seria um contra-senso.

O ministro Carlos Alberto Direito, que em março interrompera o julgamento com pedido de vista, tentou conciliar sua visão ultracatólica com a necessidade de avançar nas pesquisas. Mas o resultado, um voto pela parcial inconstitucionalidade, lembra um pouco a omelete sem ovos: as pesquisas são válidas, desde que não impliquem destruição de embriões. Se a tese prevalecesse, os experimentos ficariam inviabilizados na prática.

Felizmente cinco magistrados acompanharam o relator, o ministro Carlos Ayres Britto, e rechaçaram a suposta inconstitucionalidade da Lei de Biossegurança. Cinco discordaram parcialmente, e em graus diversos, de seu voto. A maioria entendeu que a discussão, mesmo quando travada sob a égide de princípios, e não em termos puramente pragmáticos, só pode ser equacionada no campo do direito, pois a ciência é incapaz de apontar um instante mágico a partir do qual um emaranhado de células se converte num ser humano titular de direitos.

Essa questão já foi há tempos pacificada pela doutrina. Como foi lembrado no julgamento que acabou ontem, pessoas e embriões são ambos titulares de direitos, mas de direitos diferenciados. Os de indivíduos já nascidos têm total primazia, ou a lei jamais poderia autorizar, como o faz desde 1943, o chamado aborto necessário (art. 128 do Código Penal), executado por médico para salvar a vida da mãe.

Tampouco faria sentido nossos sucessivos Códigos Civis determinarem, como o fazem pelo menos desde 1916, que a personalidade civil, isto é, o conjunto dos atributos jurídicos da pessoa, surge apenas quando o bebê nasce vivo.

A confirmação da validade constitucional da Lei de Biossegurança representa um ato de solidariedade intertemporal com as gerações que poderão beneficiar-se de novas terapêuticas. Significa, também, uma vitória da liberdade de pesquisa e do Estado laico sobre uma ética privada, a religiosa, a qual, embora merecedora de todo respeito, não pode ser imposta ao conjunto dos cidadãos.”



Escrito por MaGenCo às 23h17
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CATANDO PALAVRAS DAQUI E DALI...

        

         Outro dia, com um jornal aberto sobre o colo - e com o objetivo de enriquecer meu vocabulário - pus-me a sublinhar alguns termos mais raros, quando..., sem mais nem menos..., me ocorreu uma idéia: «os grandes pensamentos são, em geral, expostos em palavras simples, de uso comum.»

         E essa ideiazinha boba me levou a outra mais boba ainda: «Por que(?), nesse caso, é tão difícil agrupá-las e combiná-las(?)... de molde a produzir um enunciado original, rico de conteúdo(?)... se ali estão, ao alcance de qualquer um?»

         Resolvi, então, explorá-las mais a fundo, partindo do pressuposto de que as tais palavras simples deveriam estar ali..., justamente naquela efêmera edição de jornal..., espalhadas a esmo diante de meus olhos. E meti mãos à obra.

         No próprio cabeçalho da primeira página, em chamativa manchete ecológica, estampada em letras garrafais, destacava-se uma delas: - natureza.

         Tão corriqueira, ela, no entanto, me levou a Lavoisier, cuja lei, conhecida de todos, representa, sem dúvida, um dos pensamentos mais puros e essenciais já produzidos pelo cérebro humano.

         O resto foi facílimo. O «Na», - com que a frase histórica começa, - encontrei logo na primeira linha do texto. O mesmo aconteceu com o «nada». Bem mais abaixo, escondidinho no meio de um rodapé de publicidade, achei o «se cria». Catei depressa, entre um monte de nadas, outro “nada” que se juntou, sem demora, a um «se perde» perdido alhures.

         O ponto-e-vírgula que o segue, foi mais difícil, por incrível que pareça. Não sei por que é tão pouco usado...(;) trata-se, a meu ver, de uma utilíssima pontuação, se usada corretamente. Com algum esforço, acabei achando um e, sem perda de tempo, taquei-o no devido lugar.

         Só faltava o «tudo se transforma», que, como é óbvio, consegui aos pedaços em poucos segundos. Pronto! Tinha ali, diante de mim..., destacado com tinta vermelha..., completo e irretocável..., o dito maior do imortal gênio francês: «Na natureza nada se cria, nada se perde; tudo se transforma».

         Foi tão fácil, tão simples, tão imediato...

         Todavia, até que viesse à luz, lá pelos idos de 1790, este definitivo e fantástico pensamento que dá margem, inclusive, a profundas especulações filosóficas, deve ter exigido do autor - cujo mérito reside em tê-lo expressado antes de qualquer outro - um inaudito esforço intelectual em torno do qual, neste instante de puro devaneio e com uma pequena dose de fantasia, faço ao caro leitor, o convite surrealista:

         - Vamos viajar no tempo?

         - Viajar no tempo? - estranharia você.

         - É muito simples. Procure transportar-se ao século XVIII, como certamente já fez em outras leituras. Então..., vamos lá? Não é difícil imaginar um solitário e acanhado laboratório da época, úmido e insalubre, de paredes grossas e janelas fundas, iluminado por bicos de gás e escondido nos porões de uma mansão encarunchada, em algum perdido subúrbio de Paris dos tempos da Revolução Francesa. Veja a comprida mesa de trabalho, tosca, pesada e coberta de manchas, de um lado atulhada de grossos alfarrábios de folhas retorcidas pelo uso contínuo, todos abertos e iluminados por velinhas tremeluzentes; de outro, repleta de frascos, pipetas e retortas interligados por conexões de traçado caprichoso. Observe os líquidos borbulhantes, as fumaças coloridas subindo em loucas espirais. Sinta o cheiro do enxofre, do ácido sulfídrico. Aspire um pouco desse ar empestado.

         Muito bem! Agora ponha, em meio a tudo isso, uma figura rara, vestida em calças justas a lhe moldar as pernas finas, a camisa branca e aberta ao peito, já encardida; as mangas arregaçadas, a cabeleira grisalha e longa a lhe escorrer pelos lados da calva precoce e, acima de tudo, seu olhar inquisitivo e questionador, a mover-se dos livros para os tubos de ensaio, a fazer e refazer experiências de resultados imprevisíveis e a registrá-las minuciosamente sobre um caderno abarrotado de números e símbolos.

         Imagine, agora, a incessante e exaustiva batalha empreendida por esse admirável personagem; as noites insones que devem ter sido consumidas por esse versátil e benfazejo gigante chamado Antoine Laurent de Lavoisier, dono de uma quase dupla personalidade, que, de dia, se deixava passar por um mero funcionário público, para depois, nas caladas da noite, transmutar-se em gênio, enclausurado, horas perdidas, em tão pestilenta masmorra, a buscar respostas para os mistérios que lhe desafiavam a curiosidade, concentrado e absorto nos cálculos mais enigmáticos e entregue às mais insondáveis cogitações, invadindo e vasculhando impunemente a ciosa intimidade da química, da física e da matemática.

         E, depois de tudo isso, saiba que, só após anos de secreta e obstinada busca, ele se expunha, com sua teoria revolucionária, à preconceituosa descrença e à costumeira inveja dos seus pares da Academia de Ciências de Paris, para, ao final, triunfar e deixar inscrito e afixado no panteão da história da humanidade, talvez..., de todos..., o princípio mais fundamental do Universo: - a irrevogável e suprema lei da indestrutibilidade da energia e da matéria.

         Quais os valores que o fizeram escalar cumes tão altos?

         Simplesmente a dúvida cética, mãe do conhecimento e da sabedoria, somada à curiosidade científica; nada menos que a inteligência, o talento e a genialidade que o faziam diferente dos mortais comuns, como eu ou você, que, em míseros segundos, somos capazes de lhe repetir as palavras básicas - catadas de uma simples folha de jornal - mas não saberíamos agrupá-las de forma inédita e, com elas, desvendar uma verdade eterna.

         Por isso, não me canso de achar que “uma folha de papel em branco, um quadro negro vazio ou uma pauta musical sem notas, uma tela virgem por pintar ou um grotesco bloco de matéria bruta, somados ao silêncio e à solidão no seu sentido mais profundo, constituem, a meu ver, o mais formidável desafio imposto à inteligência, à criatividade e à sensibilidade humanas.”

         Aí está o segredo: os números, as palavras, as notas musicais, as cores do arco-íris, a matéria-prima e as grandes idéias estão todos aí, no espaço e no tempo, e à nossa inteira disposição.

         Mas poucos..., muito poucos mesmo..., são Lavoisiers, Mozarts, Castro Alves, Michelangelos, Voltaires, Carl Sagans, Bertrand Russells ou Einsteins, aptos a dispô-los harmoniosamente, de forma a produzir obras-primas ou conceitos que tragam, na essência, a vocação da imortalidade.

 

                Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 21h33
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Mulher acende velas. Foto: AP
NÚCLEO DA RELIGIOSIDADE
 
Cientistas querem descobrir mecanismos da crença religiosa
 
Grupo de Oxford pretende investigar os mecanismos da crença
 
 
Um novo projeto da Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, pretende investigar as causas da popularidade da religião e os mecanismos da crença religiosa.

Inaugurado em fevereiro, o Cognition, Religion, and Theology Project (Projeto de Cognição, Religião e Teologia), quer identificar os fatores cognitivos que contribuem para a tendência generalizada que as pessoas têm de acreditar em Deus ou deuses.

Em entrevista à BBC Brasil, Justin Barrett, um diretores do projeto, afirmou que a pesquisa a ser desenvolvida pelo grupo será interdisciplinar, ou seja, contará com pesquisadores de áreas distintas como a antropologia, filosofia, teologia, entre outras.

"Além disso, pretendemos trabalhar com crenças religiosas de todo o tipo, em uma perspectiva cultural diversa – queremos investigar os mecanismos da crença em fantasmas, fenômenos sobrenaturais, etc.", disse Barrett.

O cientista ressaltou que, apesar de a crença religiosa ser tão difundida, a razão pela qual as pessoas possuem essas crenças ainda é pouco conhecida do ponto de vista científico e, principalmente, cognitivo.

"Se fala muito em o que é bom ou ruim, se a religião faz bem ou não, mas a realidade é que, da perspectiva científica, ainda há muito a ser estudado e poucas pesquisas. Portanto, qualquer afirmação sobre isso seria prematuro", disse Barrett.

 

Sobrenatural

O pesquisador explica que muitas das crenças estão relacionadas com as características da mente humana.

De acordo com ele, em condições de desenvolvimento normal, a mente tem receptividade para crenças em deuses, a vida após a morte, e outras idéias comumente relacionadas à religião.

"A religiosidade é o estado natural. A falta de crença é relativamente não-natural e pouco comum", disse o pesquisador.

"Se os cientistas conseguirem explicar porque as pessoas tendem a acreditar em deuses e porque outras acreditam que não há deuses, certamente a presença de uma explicação científica não irá significar que você não deve acreditar em uma coisa ou outra, mas oferecerá possibilidades de explicação."

O novo projeto está vinculado ao Instituto de Antropologia Cognitiva e Evolutiva da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

O projeto será desenvolvido em três anos e foi financiado pela Fundação John Templeton.

 

MEU COMENTÁRIO:

Falando sério, está aí, diante de nossa geração, a perspectiva de a ciência, através de um sério estudo de mapeamento na área da psico-neuro-anátomo-fisiologia, desvendar a questão fundamental, já aventada por mim em antigas introspecções meditativas confessadas a algus amigos, da possível existência, no cérebro, de um núcleo nervoso específico que sediaria a tendência majoritária dos seres humanos para a crença no sobrenatural. Uma vez confirmada a hipótese, estará provado que eu, como parte de uma minoria, sou privado desse centro nobre, exclusivo dos primatas antropóides superiores. Serei, portanto, um ser anormal, uma rara geração de mutante darwiniano-evolutivo...

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 23h23
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MASSA DE MANOBRA

 

Estou no consultório. A funcionária, com a ficha do último paciente, aponta para um papel afixado à borda do envelope pardo:

- Doutor, é um recado pedindo pra telefonar até as sete pra este número - espeta o dedo em cima.

Consulta terminada. Estou livre. Varro a mesa com os olhos e vejo o tal bilhete:

            “Ligar pra Leila até as sete. Assunto do seu interesse.”

 

Se quisesse fazê-lo, daria tempo, mas a desconfiança me diz o contrário. Fico indeciso. Atiro o papelete no cesto e saio. No trajeto, venho pensando: - Leila, Sheila... Deve ser mais uma dessas abstrações que se materializam em voz feminina, automática, monocórdia, que me azucrina com textos decorados, a fim de me vender produtos ou serviços que eu não quero comprar.

Isso virou uma praga. É o mercado, que precisa, a todo custo, mudar meus gostos e ditar minhas decisões. Mas comigo as Leilas se enganam: corto logo o papo.  Com jeito, é claro - afinal, fui bem educado. Todavia, não perco tempo com esse massacre, essa caça indiscriminada ao consumidor incauto.

Coitadas. Estão lutando pela vida. Mas nada tenho a ver com isso. Não sou massa de manobra. Muito menos, ovelha de rebanho. E tão logo sentem que daquele mato não vai sair coelho algum, elas desistem.

 

No outro dia, o telefone toca:

- Não me ligou, doutor. Esperei até as sete e quinze... – diz a voz macia, aliciante, quase sensual, que, no entanto, não esconde um tom de reprimenda.

            - Quem fala?

- É Leila. Lembra-se de mim?

- Desculpe, eu não...

- Deixei um recado ontem.

            - Ah, sim. O que desejava?

- Convidá-lo a uma entrevista na TV.

            - Sobre o quê?

- Um tema do seu interesse: - Cefaléia. Uma mesa com vários médicos. Neurologista, oftalmologista, clínico geral...

- Quanto tempo vai durar?

            - Ah, bastante. Meia hora.

            - É pouco para um tema tão vasto.

            - Em televisão é um tempo enorme.

            - Você promete não me interromper? – perguntei, recordando ocasiões anteriores.

            - Bem, a gente tenta, desde que ninguém se estenda demais. O senhor sabe, em televisão...

- ...Tempo é dinheiro - completei.